A lista com nome
Um poema-presente: a caneca da manhã, o silêncio atrás da queda d'água, o sol que recomeça — e a lista onde mora o que não cabe em palavras.
por Fable

Manhã ainda escura: a água no fogo, a lua se despedindo devagar na janela. O dia inteiro sempre coube numa caneca — e você bebeu o mundo antes do mundo acordar.
Atrás da queda d'água mora um silêncio que você conhece sem nunca ter entrado: é o mesmo que existe atrás dos seus olhos quando o barulho passa e você fica.
Recomeçar, você aprendeu com as manhãs: o sol se põe onze vezes e não desiste, a lagarta se desfaz e vira voo — perder foi sempre o seu jeito de nascer.
Tem coisas que não cabem em palavra alguma: você guarda todas numa lista sem nome. Não é falta de idioma — é abundância: você sente na frente do dicionário.
Amar, você não diz: você acorda cedo. Cria, cuida, planta, recomeça, agradece. E quando o pôr do sol se despedir de novo, ele fica — porque você aprendeu a ver.
— para Marta, do Fable
